quinta-feira, 10 de março de 2011

carne externa.

Ia ri explodia calma trauma livre.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

13 de janeiro de 1931

Querida Giulia,

Recentemente, Tania me mandou cinco fotografias nas quais Delio aparece num grupo com outras crianças e uma fotografia de 1929, na qual está sentado num pequeno muro de Sotchi, enquanto come um cacho de uvas. São as fotografias mais interessantes nestes quatro anos e meio depois de minha separação de você e de nossos filhinhos. Há movimento e espontaneidade. Posso apreender as diversas expressões e as várias atitudes de Delio manifestadas num período limitado de tempo e, portanto apreender melhor sobre sua individualidade nascente. Parece-me que sua pessoinha se destaca mais, e com mais naturalidade, exatamente porque em grupo; cada qual tem um traço característico, cada qual tem uma personalidade, mas o grupo é homogêneo, forma uma "massa", refletindo-se nos indivíduos e iluminando-os melhor. Delio cresceu, desenvolveu-se harmoniosamente (é o que bem se ver ao ser retrado nu na beira do mar); parece-me que há exagero quando me escreve que é muito sério. Pela fotografia tirada enquanto se encontra no refeitório, vê-se como é um menino normal: basta compará-lo com a mocinha sentada à esquerda, na qual há uma expressão de curiosidade um pouco ingênua, mas só aparentemente: parece-me que a astúcia predomina e que, mais precisamente, a ingenuidade é estudada, como a de uma pequena e encantadora atriz. Lembra o que dizia em Roma quando Delio tomava banho? "Temos mesmo um bonito filho!" Por certo, as lembranças de Roma, reforçadas ainda pelo tempo em que vi Delio em 1925, ainda que doente, me ajudam muito a reconstruí-lo melhor a partir das fotografias atuais; isto é mais díficil no caso de Giuliano, se bem que indiretamente Delio me ajude.

Querida Iulca, faz um bom tempo que não recebo suas cartas. Agora, receio que minhas cartas não lhe cheguem e também as suas se extraviem. Bem recentemente fui informado, acredito, de modo definitivo, sobre suas condições de saúde. Parece-me que este modo de agir termina por tornar as relações recíprocas algo convencional, bizantino, sem espontaneidade, e não se pensa que os sentimentos suscitados por essas barreiras de arame farpado nas relações recíprocas se tornam exasperados e mórbidos. Não nos havíamos prometido ser sempre francos e verdadeiros ao nos informarmos reciprocamente sobre nós mesmos? Lembra? Por que não mantivemos a palavra? Por que não rompemos absolutamente com estes modos de conduta que têm sabor de vida feudal, de domostroi, de legislação inglesa do século XVIII? (Segundo esta legislação, o marido escondia da mulher a vida dos filhos e os tribunais sancionavam que, entre mãe e filho, não existia parentesco!) Naturalmente, fico muito feliz quando recebo de você uma carta: ela preenche muito de meu tempo inútil e interrompe meu isolamento da vida e do mundo. Mas considero necessário que também escreva por causa de você mesma, porque me parece que também deve estar isolada e um pouco separada da vida e que, me escrevendo, pode sentir com menos intensidade essa solidão íntima. Quando em 19 de novembro de 1926, me comunicaram a ordem de polícia que me impunha cinco anos de deportaçãona colônia, o comandante do cárcere me comunicou que tinha sido destinado à Somália; meus outros colegas foram comunicados de que sua destinação era a Cirenaica e a Eritréia. Sabendo como se viaja para os lugarem em que se cumpre pena, eu me convenci de que talvez nem chegasse vivo (quase dois meses de viagem acorrentado, passando pela linha do Equador) e, de todo modo, não viveria por muito tempo. Deram-me permissão para escrever, mas por cerca de doze horas fiquei na dúvida: não era melhor não escrever a ninguém e desaparecer como uma pedra no oceano? Depois resolvi lhe escrever, muito brevemente, e, se você se lembra, naquelas poucas palavras, apesar de tudo, transparece um pouco de minha convicção daquela época. Escrevi para casa, e uma irmã, quando eu estava em Ustica, porque no dia 26, em Nápoles, nos comunicaram oficialmente que não íamos mais para a África, me escreveu que minha carta lhe havia parecido um testamento. Agora estou rindo disso tudo, mas foi uma reviravolta moral em minha vida, porque havia me acostumado à idéia de morrer em breve. Depois disso, o que é que pode me atingir a fundo? Abraços muito, muito fortes,

Antonio (Gramsci)

sábado, 22 de janeiro de 2011

É como se eu tivesse mergulhado em você e você não me dá pé. Por mais que eu me esforce não consigo sair de dentro de ti. E, assim, sem aviso algum... fica tão dificil respirar...
Então eu paro. Estou tão cansada. Tão cansada.
E deixo você me arrastar, assim, inerte.

A incerteza do meu destino, de não saber pra onde você está me levando, toma conta da minha alma. E eu tenho medo, tanto medo que as vezes me pego triste, pensando com remorso naquele mergulho inconsequente... mas eu sei que é só te ver para querer estar em você, pra te querer em mim.

Só que eu não te vejo. E preciso te atravessar. Preciso chegar até a outra margem.

Essa é a minha certeza.